Herdeiros do Bim Bom

3/10/2015 1 Comments


"Chega de saudade" reúne histórias dos músicos que originaram a Bossa Nova

Ruy Castro afirmou certa vez, em uma entrevista, que, por não ter vocação para música, optou por escrever sobre esse tema ao qual tem se dedicado com afinco desde a década de 90, dividindo seu tempo, também, entre leituras, cinema, futebol e biografias.

Em Chega de Saudade, lançado na década de 90, Castro proporciona ao leitor uma viagem no tempo, apresentando os primeiros passos daquele que, em sua quietude e desordem, seria, alguns anos depois, o expoente da Bossa Nova: João Gilberto. A partir da infância do músico em Juazeiro, na Bahia, o escritor reconstrói detalhadamente toda a história do gênero musical que, no começo, era considerado devaneio de jovens descontentes com o que existia no cenário da época.

A batida descoberta por João Gilberto, após ser difundida e compreendida tanto por jovens quanto pelos mais conservadores, se transformou no xodó dos músicos da época. No ínterim entre a busca pelo novo e a difusão da Bossa Nova, grandes músicos surgem e se destacam no Rio de Janeiro, como Tom Jobim, João Donato, Sylvinha Telles, Maysa, Nara Leão, Roberto Menescal, Carlinhos Lyra, Elis Regina, Edu Lobo e outros. São apresentadas, também, histórias de renomados artistas como Lúcio Alves, Dick Farney, Dick Haymes, que dividiam opiniões entre os jovens cariocas, e do unanimemente adorado Frank Sinatra.

Tida, hoje, como ultrapassada pela nova geração, a Bossa Nova continua a influenciar os brasileiros, tanto pela sua história quanto pelo seu tom. O livro Chega de Saudade possibilita o conhecimento não apenas do surgimento do estilo musical, mas do contexto em que se deu esse nascimento. A narrativa construída por Ruy Castro é resultado de conversas com cerca de 200 entrevistados e pesquisas.

No epílogo, Castro revela que, “segundo dados oficiais, ‘Garota de Ipanema’ rivaliza com ‘Yesterday’, de Lennon & McCarntney, na casa dos 5 milhões de execuções, e ‘Águas de Março’ foi apontada pelo crítico Leonard Feather como uma das dez canções do século’”. Os números revelam aos brasileiros a riqueza de nossa cultura, embora a Bossa Nova, hoje, seja lamentavelmente desvalorizada pelos mais jovens. E a obra de Ruy Castro nos transporta inteiramente para o cotidiano dos boêmios cariocas, tornando-nos parte de uma história da qual somos felizes herdeiros. 

Um comentário:

  1. Eu sou suspeita no que se refere ao Ruy Castro, que eu adoro. Ele é uma fonte de informações que vão do risível ao seríssimo. O livro é surpreendente, as informações são de primeira. Quando eu comprei o livro, pensei: Será que é chato? Mas eu adoro bossa nova e me arrisquei. Não consegui largar antes de chegar à dolorosa última página. Foi ruim ver que não havia mais um monte de páginas para ler.
    Paula, adorei o que escreveu sobre o livro e assino embaixo. Claro que não tenho a sua sensibilidade para descrevê-lo, mas posso afiançar que Ruy Castro e Bossa Nova são uma mistura mais do que perfeita.

    ResponderExcluir