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À música brasileira

Tom Jobim, Vinícius de Moraes e Chico Buarque

Em uma entrevista, o cantor, compositor e escritor Chico Buarque afirmou que a música "Every time we say goodbye", de Cole Porter, é a mais bonita do mundo. Com declarada e franca ousadia, eu discordo. Para mim, mera admiradora de acordes e canções, a música brasileira é a mais bonita do mundo. Não há, pelo planeta, composições que tenham me arrebatado mais do que as da terra do pau-brasil.

Cresci ouvindo Chico, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Elis Regina, Cazuza, Rita Lee, Tom Jobim, Vinícius de Moraes e outros grandes nomes do cenário brasileiro. Enquanto minha mãe limpava a casa ou cozinhava, lá estava o rádio, ecoando belas vozes e composições que já perturbavam a pequena e gordinha criança que fui.

Desde menininha, sei que têm dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu e que, a qualquer momento, uma roda viva pode carregar o destino para lá, trazendo reviravoltas. Apesar disso, sempre mantive os olhos cheios de cores e o peito cheio de amores (muitos vãos, outros não). Todas as fases da minha vida estão entrelaçadas a diversas canções. A adolescência, em grande parte, foi embalada por rock. No entanto, o ritmo sempre ficava em segundo plano. Minhas buscas eram por letras que fizessem sentido para o momento em que eu vivia. Novamente, então, deparei-me com a música brasileira. Entre as bossas e fossas, redescobri Chico, que caminha junto a mim desde o final da fase mais rebelde.

Suas canções me trouxeram experiências que nunca havia tido a oportunidade de vivenciar. E essas experiências aconteciam (e continuam a acontecer) em meu interior. Com fones no ouvido e olhar perdido e vago, meu silencioso coração era mexido e remexido pelas letras, assim como meus pensamentos, unindo os pedaços de mim. Por meio do carioca, comecei a conhecer ainda mais outros artistas.

Ouvia canções nas vozes de diversos músicos do país. Elas pareciam sob medida para mim, que passei a observar melhor o mundo ao meu redor e perceber que, às vezes, tudo é lindo e, às vezes, tudo engana. Entre confrontos e conflitos, refugiava-me na música brasileira. Compreendi, graças a Belchior e Elis, que, apesar das desavenças, sempre seremos os mesmos e viveremos como nossos pais, por mais que queiramos ir contra eles. No fim, somos todos iguais nesta e em outras noites.

Tom e Vinícius me trouxeram a alma do Rio de Janeiro sem que eu precisasse sair de casa. Ipanema, transfigurada em sua garota, tornou-se velha amiga. Mas, apesar de existirem sol e alegria, há, também, tempestade. Afinal, a felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar. Voa tão leve, mas tem a vida breve. Precisa que haja vento sem parar. E é o mesmo Vinícius, capitão do mato, poeta e diplomata, o branco mais preto do Brasil da linha direta de Xangô – junto a Baden Powell –, quem reacende diariamente as esperanças em meu peito por me deixar saber que não há necessidade de chorar nem de sofrer, pois há sempre um novo amor em cada novo amanhecer.

Meu Brasil brasileiro

"Brasil, terra boa e gostosa"

No fundo, o peito estremece de orgulho. Olho para o Brasil e vejo as belezas naturais. Cachoeiras, rios, riachos. Montanhas, morros, vales. Planícies. O céu, ora azul, ora negro, alternando sol e estrelas. O brilho da lua sobre o calçadão de Copacabana e o Rio Paraíba do Sul. A estação da Sé, com idas e vindas; procuras e encontros. O Rio sob a proteção do Cristo Redentor que, como afirmava Cazuza, tem “os braços sempre abertos, mas sem proteger ninguém”.

Qual o quê! Brasil é terra protegida. Brasil é Catolicismo, Espiritismo, Umbanda. É São Jorge, Chico Xavier, Iemanjá. É o sorriso iluminado do sambista que alegra as tardes de domingo. E é, também, a rima do poeta que, por meio de seus traços e sensibilidade, possibilita reflexões sobre Eu, Tu e Eles. Brasil é a praia que, no meio do dia, está cheia de sonhos e planos estendidos sobre a areia.

É a Igreja de Nossa Senhora da Candelária, que presenciou não só a chacina, mas também o cordão humano formado por padres para proteger aqueles que compareceram à missa pela morte do estudante Édson Luís, assassinado no restaurante Calabouço por militares durante o período ditatorial.  

Brasil é terra de Caetano Veloso, Ivan Lins, Rita Lee, Renato Russo. É a casa de Maria, Clarice, Benjamim, Madalena, Nancy, Luiza, Paula e Bebeto. É o berço das composições do Irmão do Alemão. É o palco principal de Fernanda Montenegro, Nathalia Timberg, Lucinha Lins, Antônio Fagundes, Carlos Vereza, Beth Goulart; da guitarra de Pepeu Gomes e da voz de Milton Nascimento. Se Deus tivesse voz, seria a de Milton, já dizia Elis Regina.

Verde, amarelo, azul e branco. Pátria-Mãe de filhos célebres. Viu nascer em seu seio João Grilo e Chicó. Como foi? Não sei. Só sei que foi assim. Em seu solo, viu derramadas lágrimas da estilista Zuzu Angel, enquanto buscava por seu filho, Stuart, assassinado cruelmente em 1971, na Base Aérea de Santa Cruz, fato elucidado pela Comissão Nacional da Verdade, responsável por fazer o brasileiro conhecer sua dolorosa e lamentável história. 
  
Apesar do Festival de Besteiras que Assola o País, o Brasil é terra santa. É espaço de criações que, cá para nós, desbancam quaisquer produções estrangeiras vorazmente consumidas pelos nossos adolescentes. Tragédias e comédias, realidade e ficção, braços, abraços e beijos. Suor e calor. Arte. Bichos de sete cabeças e trens para as estrelas. Brasil é a prova de que Deus e o Diabo podem conviver pacificamente na Terra do Sol.

Letras, músicas, casos e acasos


A obra Letra e música: a canção eterna e a palavra mágica, do jornalista e escritor Ruy Castro, dividida em duas partes, aborda questões relacionadas à música, no primeiro volume, e ao jornalismo e literatura, no segundo.

Histórias e canções que embalaram o Rio de Janeiro desde os primeiros anos do século XX até a atualidade, revelando peculiaridades de músicos e compositores – como a comunicação de Tom Jobim com pássaros e sua relação com a natureza e a reação da Banda de Ipanema no momento da morte de Pixinguinha – possibilitam ao leitor maior conhecimento acerca do cenário cultural carioca, a partir do qual tiveram origem diversos movimentos que, até os dias de hoje, refletem na forma e no conteúdo produzido por artistas contemporâneos.

A riqueza de detalhes – características das obras do escritor – com que são narrados os casos que envolvem músicos da Cidade Maravilhosa se sobrepõe à segunda parte, na qual são apresentados textos, todos produzidos e publicados inicialmente no jornal Folha de São Paulo, sobre literatura e jornalismo. Nesse bloco, são contadas, também, as experiências do escritor enquanto jornalista e biógrafo, que, até o momento, se dedicou a apurar e conhecer a vida de Garrincha, Nelson Rodrigues e Carmen Miranda.

Lançado em 2013, o livro reúne 64 crônicas produzidas entre 2007 e 2013 para a coluna do autor no diário paulista. Assim como em outras obras de resgate histórico e cultural, Ruy Castro oferece ao leitor grandes informações e conhecimento sobre os fatos abordados e o contexto no qual eles aconteceram.

Seu Francisco

Chico Buarque

Francisco Buarque de Hollanda. 70 anos. Chico. Conhecido pelos belos olhos azuis e palavras poéticas e certeiras com que descreve o mundo. Buarque. Compositor, escritor, autor de peças de teatro, cantor. Conhecedor da alma humana. Homem que, sem dúvidas, carrega a essência da mulher. Interpreta-a e descreve-a com precisão ímpar. Entendedor do lado humano romântico e, também, sombrio.

Político, amante, cronista, trovador, malandro. Paris, Itália, Budapeste, Rio de Janeiro. Outrora, Julinho da Adelaide para se esquivar da acirrada marcação dos censores do período militar. Contornou-os e deu aos brasileiros grandes canções que, ainda hoje, são tocadas em fones de ouvido e caixas de som. Continua a encantar jovens e velhos. Tímido. Durante anos de sua carreira, recusava-se a subir aos palcos sem a presença dos músicos do grupo MPB-4. Noutros tempos, não aceitava se apresentar sem cigarros e bebidas. Acostumou-se, mas raras vezes sai de seu silêncio para breves contatos com o mundo e os fãs. 

Chico, com o seu brilhante talento para juntar palavras e enternecer corações, é um dos mais completos artistas brasileiros. Em suas músicas, ele narra vidas de pessoas comuns. Suas letras, lidas e sentidas enquanto vivemos o momento presente, terão outro significado trazido pelo amanhã e suas novas circunstâncias. Profundo e engajado, o músico alcança todos os brasileiros e representa, por meio de sua obra, os mais nobres e pobres sentimentos devido a sua aguçada sensibilidade para olhar, ouvir e interpretar o mundo ao redor. 

De "Eu te amo", hino dos apaixonados, a "Meu caro amigo", que conta o drama dos exilados, Buarque abriga diferentes realidades em sua arte e as mostra aos seus fãs. Envolve-os. Leva-os a sentir intensamente. A súbita partida de Stuart Angel e a dor de sua mãe Zuzu, transformada em Angélica, sufoca o ouvinte impotente diante da angústia da busca pelo filho. Aprendemos que, apesar de você, amanhã há de ser outro dia. E Lily Braun mostra que amores podem se transformar em prisões.

Em "Gota d'água", o coração, que precisa ser deixado em paz por ter se tornado um pote de mágoas, é alvo de sofrimento. Em cena, na primeira montagem, Bibi Ferreira traz à vida Joana, abandonada pelo marido Jasão após 10 anos de união. "Antes de Joana, ele era a merda em negativo". Interessado apenas em ganhar dinheiro com seu samba, Jasão larga a esposa e a troca por Alma, cujo pai é grande incentivador de sua carreira. Amargura, vingança, ódio e veneno permeiam a obra. 

Ele também faz cinema e pode ser mil, mas não existe outro igual. Benjamim e Budapeste, duas de suas obras literárias, foram transformados em filmes pelas mãos dos diretores Monique Gardenberg e Walter Carvalho, respectivamente. Ambos brilhantes, tais quais o autor. Vagam entre dúvidas, covardia, abandono e o insuportável peso da vida. 

Por meio do olhar buarqueano, vemos o mundo apresentado e representado nas diferentes formas de arte. Cinema, música, literatura e teatro reunidos em um homem. Sentimos, entendemos sentimentos e compreendemos verdades indubitáveis. Buarque não envelhece. Ele se renova a cada letra minuciosamente elaborada, a cada obra publicada. Chico é indispensável e recomendado em doses excessivas para todos os momentos, haja o que houver. Palavra de mulher