Mostrando postagens com marcador Cinema. Mostrar todas as postagens

Segunda Chamada — O Brasil na arte e na vida

Elenco de Segunda Chamada/ TV Globo


Os desafios do ensino público para jovens e adultos somados aos dramas pessoais de professores e alunos: esta é a combinação que faz da série Segunda Chamada um dos grandes atrativos da televisão brasileira. Estrelada por nomes conhecidos, como os atores Debora Bloch, Paulo Gorgulho e Sílvio Guindane, a produção traz reflexões sobre o sistema educacional do Brasil e o quanto este pode impactar a vida de estudantes de periferia de todas as idades.

A série, escrita por Carla Faour e Julia Spadaccini, narra a trajetória dos alunos e docentes da Escola Estadual Carolina Maria de Jesus, homenagem apropriada à história de vida da escritora mineira, que batiza a unidade escolar localizada em uma comunidade na cidade de São Paulo. O primeiro episódio marca o retorno da professora Lúcia ao trabalho após um período de afastamento devido à morte trágica de seu filho, em um acidente na porta da instituição de ensino. O rapaz era aluno e, depois de uma briga com um professor e a mãe, foi vítima de um atropelamento.

Simultaneamente à história de Lúcia, o espectador acompanha as dificuldades do corpo docente para manter o ritmo em meio a parcas condições de infraestrutura e os dramas cotidianos dos professores Marco André, Eliete, Jaci e Sônia, que, enquanto buscam resolver suas próprias questões, se veem envolvidos em diversos episódios, igualmente dramáticos, da vida de seus alunos. Entre eles, estão Natasha, uma travesti que luta para ser respeitada socialmente; Jurema, uma idosa que, depois dos 70 anos, enfrenta o marido e volta para a escola; e Sílvio, um morador de rua que é considerado o mais brilhante aluno de matemática e sofre preconceito dos próprios colegas. 

Sempre um dos principais pontos de discussão em todo o Brasil, a educação é a grande protagonista da série. Por meio da rotina na Escola Carolina Maria de Jesus, parte dos jovens e idosos percebe que, a partir do conhecimento e das oportunidades que este traz, é possível transcender a realidade imposta às suas vidas. Por outro lado, há os que tentam se adequar à escola, mas não conseguem e buscam opções mais “fáceis”, não sem mágoa e revolta pelas promessas não concretizadas de um novo futuro e pelo “tempo perdido” nas cadeiras e bancos escolares.

Ainda que deixe fios soltos para conclusões em uma próxima temporada, Segunda Chamada teve as gravações suspensas e não tem previsão para lançamento de novos episódios, o que não impede a compreensão da narrativa e da arte em mais uma imitação da vida real. 

Sobre a série:

Onde assistir? Globoplay Temporada: 1 Episódios: 11 Ano de produção: 2019


Mais do mesmo


Simplesmente Acontece – Quem aprecia cinema sabe que, em larga escala, as histórias produzidas atualmente visam o lucro. Para alcançá-lo, a equipe se adéqua apenas às exigências do mercado e elabora longas-metragens conhecidas como blockbusters, que, fatalmente, atrairão grande quantidade de pessoas para as salas espalhadas pelo mundo. Não há preocupação em cumprir um dos maiores papéis da arte: envolver o espectador a ponto de produzir reflexões e discussões a partir do que é mostrado, como ocorre tanto em filmes estrangeiros — Efeito Borboleta (2004), de Eric Bress e J. Mackye Gruber — quanto em brasileiros — Solidões (2013), de Oswaldo Montenegro.

No entanto, a relação esperada entre arte e público não é uma das preocupações presentes em “Simplesmente acontece”, dirigido por Christian Ditter. O roteiro, adaptado do livro homônimo de Cecelia Ahern, abusa das fórmulas repetitivas e enjoativas sobre o final da adolescência e novas experiências de personagens entre 18 e 30 anos, sempre focando em desencontros amorosos. Não há novidades no enredo que possam ser aproveitadas e extraídas da história sem temperos e maiores atrativos, podendo levar o espectador ao tédio com apenas vinte minutos de filme.

A história se passa na Inglaterra e nos Estados Unidos. Dois jovens, Rosie (Lily Collins) e Alex (Sam Claflin) são alunos da mesma escola. Os personagens, adolescentes no começo da história, são amigos desde a infância. Mas, como esperado em filmes de comédia romântica, ambos nutrem sentimentos até então impossíveis de serem concretizados. Ela namora outros rapazes, assim como ele mantém relacionamentos com outras meninas, e nenhum dos dois deseja ceder ao romance, sendo este o atrativo para os admiradores do gênero.

Ambos querem sair da Europa para a América do Norte com o objetivo de estudar. Ela visa a Universidade de Boston e ele, Harvard. Ao ser aprovada na instituição, Rosie descobre que está grávida e abre mão do seu sonho de cursar Hotelaria. Alex, sem saber da situação da amiga, parte para outro continente e promete esperá-la. A garota, então, dedica-se à filha Katie. Mas o amor platônico pelo rapaz não é esquecido, e eles continuam a se corresponder periodicamente. O desenrolar da história, como anseiam os espectadores envolvidos com o sonhado namoro dos personagens — tática usada por escritores, roteiristas e demais criadores para manter o público preso à narrativa — culmina no esperado fim para os longas-metragens do estilo.

Ao longo do filme, determinadas sequências indicam outros possíveis caminhos mais interessantes para a história, como as consequências da morte do pai da protagonista e o impacto da gravidez na vida da jovem, que troca os estudos pelo papel de mãe em tempo de integral.

Uma dessas cenas mostra o diálogo entre os personagens, no qual Rosie explica a Alex o motivo de não ter contado sobre o nascimento de sua filha. A protagonista diz ao amigo que esta seria a única forma de alguém continuar a vê-la como Rosie, e não como uma estranha. A conversa demonstra a dificuldade de amadurecimento da mulher, que não consegue se enxergar, agora, como adulta e gostaria de manter, por meio do amigo, um vínculo com o passado, representando o sentimento de meninas despreparadas para a maternidade.

A despeito da existência de outras perspectivas para a história, o roteiro de Juliette Towhidi deságua no previsível (o amor mal resolvido do casal) e afunda na entediante mesmice, indo de encontro às possibilidades narrativas que poderiam ser exploradas para melhor aproveitamento do filme.


Publicado na coluna Bagdá Café, do jornal Folha da Manhã, e no Blog Opiniões no dia 18 de março.

A arte de perder


Para sempre Alice A fusão de arte e vida, em que ambas são diariamente misturadas e se confundem, é uma questão indiscutível. A temática do Mal de Alzheimer é um assunto corriqueiramente abordado — tanto superficial quanto minuciosamente —, no cinema, em filmes como A Separação (2011), de Asghar Farhadi, e Há tanto tempo que te amo(2008), de Philippe Claudel; e na literatura, na obra O lugar escuro, da jornalista Heloísa Seixas. Novamente o tema retorna às telas, no filme Para sempre Alice, dirigido por Richard Glatzer e Wash Westmoreland.

Baseado na obra de ficção homônima de Lisa Genova, Para sempre Alice, por meio de cenas ricas que afloram perturbadores sentimentos no público, mostra a realidade dos pacientes diagnosticados com mal de Alzheimer — somente no Brasil, segundo dados da Associação Brasileira de Alzheimer, há mais de 1,2 milhão de enfermos. Alice Howland, interpretada por Julianne Moore, é uma renomada professora americana de Linguística, que leciona na Universidade Columbia, conhecida pelas produções acadêmicas e incontestável inteligência.

Os primeiros traços da doença aparecem suavemente durante o jantar em comemoração ao aniversário da docente, no momento em que ela confunde uma conversa sobre as filhas e se refere à irmã, morta na juventude. No entanto, a confusão, como ocorre diariamente em quadros clínicos ainda não diagnosticados, passa despercebida por todos os presentes.

O avanço do Alzheimer começa a ser notado pela mulher durante uma palestra proferida na universidade, quando lhe falta uma palavra comumente utilizada. A partir de então, Alice se perde, conforme ela própria afirma, e seu lugar é tomado por uma mulher emocional, física e
mentalmente frágil e debilitada. À medida que a doença evolui rapidamente, percebe-se ainda mais a semelhança com o cotidiano no qual vivem os enfermos. Nesses momentos, o diálogo entre ficção e realidade se torna ainda mais nítido, ao mostrar as degradações e perdas, tanto emocionais quanto físicas, trazidas com a passagem do tempo.

Notando-se cada vez mais incapaz de exercer suas funções cognitivas normais, Alice recorre a mecanismos eletrônicos e manuais que possam ajudá-la a manter-se conectada ao mundo real e às suas memórias. Os dias de linguista tornam-se tão nebulosos quanto as lembranças que
permearam seu cérebro por 50 anos, idade em que foi diagnosticada com mal de Alzheimer.

Os danos causados são apresentados por meio de cenas turvas e pouco nítidas, equivalentes à confusão mental da professora, fazendo o espectador enxergar o mundo através dos olhos vagos de uma Alice abatida e lívida, sem o ar sóbrio que lhe era característico. Em uma sequência, enquanto a personagem caminha pela praia, a captação das imagens é feita em plano aberto, colocando-a sozinha diante da areia e do mar. A sensação de vazio, causada pela ausência de outros elementos cênicos, é a representação imagética da situação da mulher, em que os detalhes mais íntimos desaparecem por completo de sua memória, deixando-a órfã de si mesma e entregue à solidão absoluta.

Em um discurso proferido na Associação de Alzheimer, Alice Howland traduz a percepção das pessoas enfermas acerca da nova realidade e, também, o sentimento dos espectadores que acompanham, em aproximadamente 1h40 min, a curva descendente da vida da protagonista. Brilhantemente montado e dirigido, o filme facilita a empatia entre o público e a personagem.

A temática, embora recorrente, é abordada com total verossimilhança, e o longa-metragem destaca-se, sobretudo, pela atuação de Julianne Moore, que incorpora plenamente a personagem após o diagnóstico de Alzheimer da linguista. O papel rendeu à artista os merecidos prêmios de Melhor Atriz do Oscar, do BAFTA e do Prêmio Critic’s Choice, e, também, de Melhor Atriz em Filme de Drama do Globo de Ouro.

No decorrer do filme, a troca entre o público e a protagonista é plena, fazendo doer em nós, sujeitos passivos e meros receptores, todas as limitações e receios da mulher, visto que, dia a dia, também deixamos para trás um pouco de nossa história.



Publicado na coluna Bagdá Café, no jornal Folha da Manhã, e no Blog Opiniões, no dia 11 de março.

Meu Brasil brasileiro

"Brasil, terra boa e gostosa"

No fundo, o peito estremece de orgulho. Olho para o Brasil e vejo as belezas naturais. Cachoeiras, rios, riachos. Montanhas, morros, vales. Planícies. O céu, ora azul, ora negro, alternando sol e estrelas. O brilho da lua sobre o calçadão de Copacabana e o Rio Paraíba do Sul. A estação da Sé, com idas e vindas; procuras e encontros. O Rio sob a proteção do Cristo Redentor que, como afirmava Cazuza, tem “os braços sempre abertos, mas sem proteger ninguém”.

Qual o quê! Brasil é terra protegida. Brasil é Catolicismo, Espiritismo, Umbanda. É São Jorge, Chico Xavier, Iemanjá. É o sorriso iluminado do sambista que alegra as tardes de domingo. E é, também, a rima do poeta que, por meio de seus traços e sensibilidade, possibilita reflexões sobre Eu, Tu e Eles. Brasil é a praia que, no meio do dia, está cheia de sonhos e planos estendidos sobre a areia.

É a Igreja de Nossa Senhora da Candelária, que presenciou não só a chacina, mas também o cordão humano formado por padres para proteger aqueles que compareceram à missa pela morte do estudante Édson Luís, assassinado no restaurante Calabouço por militares durante o período ditatorial.  

Brasil é terra de Caetano Veloso, Ivan Lins, Rita Lee, Renato Russo. É a casa de Maria, Clarice, Benjamim, Madalena, Nancy, Luiza, Paula e Bebeto. É o berço das composições do Irmão do Alemão. É o palco principal de Fernanda Montenegro, Nathalia Timberg, Lucinha Lins, Antônio Fagundes, Carlos Vereza, Beth Goulart; da guitarra de Pepeu Gomes e da voz de Milton Nascimento. Se Deus tivesse voz, seria a de Milton, já dizia Elis Regina.

Verde, amarelo, azul e branco. Pátria-Mãe de filhos célebres. Viu nascer em seu seio João Grilo e Chicó. Como foi? Não sei. Só sei que foi assim. Em seu solo, viu derramadas lágrimas da estilista Zuzu Angel, enquanto buscava por seu filho, Stuart, assassinado cruelmente em 1971, na Base Aérea de Santa Cruz, fato elucidado pela Comissão Nacional da Verdade, responsável por fazer o brasileiro conhecer sua dolorosa e lamentável história. 
  
Apesar do Festival de Besteiras que Assola o País, o Brasil é terra santa. É espaço de criações que, cá para nós, desbancam quaisquer produções estrangeiras vorazmente consumidas pelos nossos adolescentes. Tragédias e comédias, realidade e ficção, braços, abraços e beijos. Suor e calor. Arte. Bichos de sete cabeças e trens para as estrelas. Brasil é a prova de que Deus e o Diabo podem conviver pacificamente na Terra do Sol.

Flores raras e banalíssimas



Flores raras - Uma linda história que tem como principal tema, não a relação entre Lota e Bishop, mas a luta de Lota para construir o Aterro do Flamengo e como isso acabou com ela. No livro homônimo, a questão é mais exaltada.

A vida de Lota é permeada de lutas e conquistas. Determinada, ela sempre foi caracterizada pela força de vontade e naturalidade como se apresentava ao mundo e à vida: sem máscaras, sem falsos pudores, sem deixar de falar o que tinha vontade e com sua linguagem direta e, ao mesmo tempo, terna e carinhosa com todos.

Bishop é um caso à parte. Uma poeta americana, inteligente, mas que se anulou frente à força e determinação de Lota, mostrando-se frágil e dependente, o que acaba irritando um pouco as amigas da parceira, que sequer percebiam a inteligência da poeta.

Mas não estou aqui para falar de algo que tem sido tão divulgado pela mídia, com o lançamento do filme do Bruno Barreto. E sim para reclamar  do fato de que em nossa cidade, Campos dos Goytacazes, muito problemática, o filme, lançado em 2013, jamais foi exibido. Me pergunto o motivo desse absurdo, pois em Macaé, município vizinho, houve exibição.

Lamentável é a única palavra que posso usar para me referir ao fato.

Leiam o livro e vejam o filme. Não se arrependerão.


A luxuosa bonequinha de Herpburn


Bonequinha de Luxo - Um dos temas mais corriqueiramente abordados, tanto em novelas quanto em filmes de qualidade discutível, é o famoso “golpe do baú”, no qual um personagem tenta, muitas vezes em vão, unir-se a outro por interesses econômicos escusos. Poderia ser esse, também, mais um episódio do cotidiano. No entanto, na década de 60, quando foi lançado Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s, 1961), outros assuntos apareciam com mais evidência devido ao contexto político e histórico pelo qual transitava o mundo.

Apesar da amplitude de possibilidades temáticas e ideias das quais poderiam se servir os diretores, o longa-metragem, baseado no livro homônimo do jornalista Truman Capote, é um dos mais lembrados atualmente pelos cinéfilos. Em grande parte, o reconhecimento de Bonequinha de Luxo, dirigido por Blake Edwards, deve-se à nobreza e glamour da atuação da belga Audrey Hepburn, uma das musas do cinema, morta em 1993 devido a um câncer de apêndice.

A história se passa em Nova York. Audrey interpreta a jovem ambiciosa e, por vezes, inocente Holly Golighty, cujo sonho é casar-se com alguém que possa realizar seus desejos materiais. No entanto, a vida de Holly esbarra em situações que não podem ser controladas pela personagem. Encontros inesperados, surpresas e mortes, que a tornam aparentemente mais firme para conquistar o que considera certo para si.

Holly conhece um jovem escritor rufião chamado Paul Varjak (George Peppard), que sobrevive sob cuidados financeiros de Mrs Failenson (Patricia Neal). Com a proximidade, a protagonista passa a compará-lo a seu irmão Fred e o chama apenas pelo codinome. O envolvimento visível dos personagens parece indiferente aos olhos de Holly, que continua a ansiar pela união com homens que possam lhe suprir as carências materiais, ao passo que seu companheiro distancia-se cada vez mais de sua amante para dedicar-se à garota, que decide casar-se com um fazendeiro brasileiro.

Em uma cena na qual fazia sua primeira (e única) peça de tricô, pelo rádio, ouvimos, junto à concentrada personagem, lições de língua portuguesa. No entanto, por descuido ou displicência, os ensinamentos são passados em português de Portugal, e não do Brasil, cujas variações de significados, se mal aplicadas, podem deixar constrangidos os iniciantes.

Apesar das pretensões, novamente Holly é atropelada por desígnios desconhecidos e, como todo bom filme romântico, atende aos desejos dos espectadores sonhadores e o desfecho é a sempre esperada união do casal principal, cujas ambições, aparentemente, cedem espaço para sentimentos mais socialmente aceitáveis.

Embora se entregue às previsibilidades no enceramento, o filme continua a ser uma das referências do cinema. A já citada atuação de Audrey Hepburn e a forma como é apresentado o amadurecimento da personagem e sua consequente mudança de posicionamento em relação à vida, principalmente após dolorosas palavras ditas a ela pelo escritor Varjak, são pontos em que o longa-metragem se afasta definitivamente das banalidades existentes sobre o mesmo assunto.

À época do lançamento, Bonequinha de Luxo conquistou as estatuetas de Melhor Canção Original e Melhor Trilha Sonora do Oscar, em 1962.