Conto: Rogai por nós
Como fazia todo o final de tarde, ela pegou sua pequena
bíblia e se sentou na beira da cama. Afastou os ralos cabelos brancos dos olhos
verdes. Abriu na página marcada, leu, rezou, chorou. Refletiu. Novamente, abriu
uma página. Dessa vez, aleatória. E, mais uma vez, leu, rezou e chorou. Não
mais refletiu. Eram seis da tarde, hora da Ave Maria.
No embalo do sino da igrejinha, rogou que a santa lhe desse
toda a bênção necessária para prosseguir. Para amanhecer de novo. Para afastar
todas as sombras que se puseram em sua frente. Pediu a Maria que, como mãe,
protegesse essa filha perdida.
Às seis horas e dois minutos, quando o soar do sino havia
cessado, colocou a bíblia sobre a mesa ao lado da cama. Andou pelo quarto.
Olhou as paredes, cheias de manchas e histórias. Pensou em Maria. “Mãe, rogai
por nós. Rogai por mim.” E, em meio às súplicas, repetiu o caminho até a
bíblia. Segurou. Abriu. Leu. Rezou. Chorou. Deitou.
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