Impressões
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| Liv Ullmann e Ingmar Bergman durante a gravação do filme "Persona" |
Desde a infância, tenho hábito de ver filmes. Os de terror
eram os meus favoritos. Quanto mais assustador, melhor. Após alguns anos, conheci
um pouco mais e me rendi ao drama. Lembro que “Lado a Lado” foi o primeiro
longa-metragem que me emocionou. A história e a forma como ela foi narrada e
encenada me fizeram enxergar o lado mais humano da vida. A partir daquele
momento, tornei-me mais sensível aos apelos emocionais.
Passado mais algum tempo, comecei a me afastar do cinema e
de suas produções. Não havia nada que me atraísse, nada que parecesse valer a
pena. Estava em busca de algo que ainda não havia encontrado, algo que me
ajudaria a entender um pouco melhor o que se passava ao meu redor. Uma noite,
em meio ao tédio cotidiano, encontrei um DVD em minha casa. O nome era “O
Sétimo Selo”. Já havia escutado comentários sobre ele, sobre a profundidade com
que o cineasta tratava certos aspectos da vida e resolvi assistir.
Ao término do filme, uma nova sensação tomou conta de mim.
Eu acabara de conhecer uma das obras primas do sueco Ingmar Bergman, e ela
havia me incomodado. O personagem principal, interpretado por Max Von Sydow,
despertara algo em mim, algo que me trouxera uma sensação de identidade. Seus
questionamentos, seus medos, suas angústias e sua busca vã por respostas, em
certo ponto, eram também meus. Dentro de mim, havia acordado alguma coisa.
Imediatamente, comecei a buscar algumas informações sobre o
diretor que parecia conhecer o interior de todo o ser humano. Decidi, então,
ver outros de seus filmes. Em todos eles, as sensações de nudez e invasão eram
constantes. “Persona” foi minha segunda escolha. Nele, Elizabeth era uma atriz
que, de repente, escolhera o silêncio total. Dele, ninguém fazia parte. E ele
não era compreendido pelos demais. O rompimento com o passado era ímpar e
definitivo. Mesmo sem dizer uma palavra, a personagem falava o tempo todo. Ela
usava seus olhos azuis para emitir todas as suas dores, angústias, temores e
verdades relativas. Encantei-me de imediato com sua forma muda de gritar tudo o
que sentia. Logo, descobri que a artista era a jovem (à época) norueguesa
chamada Liv Ullmann.
Ullmann e Bergman, então, transformaram-se duas referências
em minha vida. Minhas leituras giravam em torno de suas vidas e trabalhos. Após
algum tempo sem assistir a outro filme no qual ambos trabalhavam, optei por
“Gritos e Sussuros”. No começo, espantei-me com a atuação de Ingrid Thulin, uma
atriz sueca, que dá vida a Karin. Durante os primeiros minutos, ela conta todo
o seu sofrimento físico ao telespectador. Narra o que sente sem uma palavra.
Suas fortes expressões possibilitam o entendimento e a consequente angústia do
público ao sentir as suas dores. Nossos estômagos doem a cada vez que a mão da
artista se posiciona sobre a barriga. O franzir de sua testa, transtornada
pelos incômodos, faz com que cada pessoa siga o mesmo gestual. A verdade da dor
irreal transmitida na ausência de som.
No decorrer da história, novamente vemos Liv Ullmann. Dessa
vez, ela representa Maria, uma das irmãs da personagem que está no leito de
morte. Mesmo em um papel secundário, Ullmann ganha força nas cenas em que
aparece. No seu rosto, há algo de verdadeiro e doído. Há buscas. Ela tenta
entender quais as circunstâncias a levaram a um distanciamento da outra irmã,
Agnes (Harriet Andersson). Em um determinado trecho, as duas estão sentadas à
mesa. Agnes transborda e fala a sua verdade para Maria, que escuta
silenciosamente toda a raiva jogada sobre ela. Suas impressões sobre a conversa
atingem o telespectador como um tiro. O olhar traz suas dúvidas e as lágrimas,
sua incompreensão acerca dos caminhos tortos seguidos por ambas. Imediatamente,
Ullmann se transforma em uma criança indefesa capaz de despertar um sentimento
materno pleno em uma pedra.
Depois de assistir a todas essas histórias, descobri um
pouco mais de mim. Percebi que o cineasta sueco e a atriz norueguesa, de quem me
tornara admiradora, sabiam mais de mim do que eu mesma. Eram invasivos,
incômodos, profundos. Revelavam aspectos mais sombrios da alma. Entendiam meus
silêncios e, se estivessem por perto, lidariam sabiamente com eles. A partir
disso, concluí que arte é arte não apenas quando emociona o espectador, mas
quando o transtorna a ponto de mudá-lo. E eu fui modificada.
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Bergman retrata as dores que a alma humana carrega. Ele decidiu se afastar do mundo, mesmo sem parar de filmar, pois não sentia mais nenhum prazer estando ao lado dos que causaram-lhe tanto mal que o fizera mostrar, ao mundo, através dos filmes, a difícil e dolorosa arte de viver. Mas ele faz tudo de uma forma tão profunda que é impossível não se sentir tocada pelas verdades mostradas. Ímpar, ele faz falta no mundo!
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